Descoberta tem implicação na busca de sistemas solares parecidos com o nosso e lança luz sobre os possíveis caminhos evolutivos dos sistemas planetários. Arte ilustra o processo engolfamento planetário pela estrela central do Sistema.
Vanderbilt University
Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira (30) na revista científica Nature Astronomy revela que pelo menos um quarto das estrelas semelhantes ao Sol canibalizam os planetas que as orbitam. A descoberta pode ajudar a entender os possíveis caminhos evolutivos dos sistemas planetários.
A Galáxia em que habitamos tem muitos sistemas planetários, e já era conhecido que a maioria deles é bastante diferente do nosso Sistema Solar.
Porém, agora, os cientistas descobriram que, ao contrário do nosso Sistema Solar – que preservou uma arquitetura ordenada dos planetas que orbitam o Sol – uma quantidade significativa dos sistemas planetários vizinhos teve um passado muito dinâmico. Em pelo menos 25% deles a estrela central pode ter “devorado” alguns os planetas que a orbitavam.
Conduzido pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de centros da Itália, Austrália e Estados Unidos, o estudo observou a composição química de estrelas de tipo solar em mais de 100 sistemas binários – sistemas formados por duas estrelas gêmeas com a mesma composição química. Para isso, foi usado o telescópio do Observatório La Silla, administrado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO) e localizado no Deserto do Atacama, no Chile.
Para espanto dos cientistas, em alguns sistemas binários analisados as estrelas irmãs não tinham a mesma composição química, já que uma delas apresentava uma quantidade maior de lítio e ferro, elementos abundantes em planetas rochosos.
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A conclusão, segundo o professor do Departamento de Astronomia da USP e um dos autores, Jorge Meléndez, é que as estrelas ricas nestes elementos haviam dissolvido em sua região mais externa alguns dos planetas do seu próprio sistema. Daí o apelido de “estrela canibal”.
“Uma abundância anormalmente alta desse elemento químico em uma estrela [lítio e ferro] pode indicar que material planetário foi engolido por ela”, diz Meléndez.
Achado contraditório
A publicação ressalta que as estrelas binárias quimicamente não homogêneas descobertas pelo estudo “representam um dos exemplos mais contraditórios na astrofísica estelar e uma fonte de tensão entre a teoria e as observações”. Além disso, ainda não está claro o que causou as diferenças na composição dessas estrelas gêmeas.
Telescópio de 3,6 metros do Observatório La Silla, European Southern Observatory (ESO), no Deserto de Atacama, Chile.
Yuri Beletsky (LCO)/ ESO
“Ainda não está claro se as variações de abundância química são o resultado de não homogeneidades nas nuvens de gases proto-estelares [da formação estrelar] ou são devidas a eventos de engolfamento de planetas (…) O primeiro cenário abala a crença geral de que a composição química das estrelas fornece as informações fósseis do ambiente em que se formaram, enquanto o segundo cenário lança luz sobre os possíveis caminhos evolutivos dos sistemas planetários”, afirma a publicação.
No entanto, os cientistas afirmam que há evidências convincentes a favor do cenário de engolfamento dos planetas pela estrela central do sistema.